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::Perfil::
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6.11.2004
Que bom que a arte torna as coisas possíveis, ontem assistindo Cazuza -o filme , pude voltar a um tempo muito especial da minha vida. Minha geração só teve ídolos póstumos, pois "cultuávamos" ídolos que na verdade eram tomados de empréstimo de gerações anteriores e quem mais falava sobre isso era o próprio Cazuza.
Ontem fiz as pazes com minha pré-adolescência e com a própria adolescência, pois passados tantos anos, tendo a história do "Caju" como fio condutor, pude perceber os privilégios que tive: conheci o Circo Voador, o próprio Cazuza, os shows do Parque Lage, do Parque da Catacumba, o projeto "som do meio-dia", enfim, os duros como eu, garimpávamos e mapeávamos toda a programação cultural gratuita ou bem barata da cidade e curtimos muito.
Talvez tenha sido da última geração que ainda pode andar de madrugada sem tanto grilo e o ritual do passeio noturno por vários bares cantando, tocando violão, bebendo, até amanhecer, me fez colecionar momentos inesquecíveis junto às "criaturas de noite".
Ontem saí do cinema à mil, com muita, muita saudade do Cazuza e com o coração transbordando de boas lembranças...
"Eu sou apenas um cronista
Narcisista do banal
eu acredito no meu lado portugues sentimental
eu acredito em paixões e moinhos,
mas minha vida sempre brinca comigo
de porre em porre vai me desmentindo"
Cazuza
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6.9.2004
Hummm....vontade de fazer umas mudanças...
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É o Moço que conta de sua mais recente viagem...
"Aconteceu no Amapá. Durante a noite da última sexta, num evento no qual houve apresentações de teatro, música e literatura (com o grupo de contadores recém-formado), o escritor paraense Jorge Andrade foi convidado para lançar o seu (bom) livro Em memória da chuva, com o qual vencera um concurso.
Eis que, enquanto o autor falava ao público sobre a relevância da poesia na sociedade contemporânea, um garoto se desprendeu da família, foi para o lado da mesa, sentou-se e, como quem não está nem aí para o assunto (porém com a precoce necessidade de platéia), começou a brincar com os seus carrinhos.
Teve-se a impressão de que o discurso do poeta, evocando de Platão a Derrida para situar a necessidade humana da expressão artística, era imediatamente posto em prática pelo moleque. Aqueles carrinhos, todos viram, em pouco tempo podem se converter em palavras, argila, tinta, sons, imagens, idéias de toda ordem que podem ser manipuladas com toda a liberdade a que o homem tem direito inato. O garoto tem futuro, autêntico homo ludens, guerreiro da prática cotidiana aliada aos ensinamentos e exemplos dos predecessores. Construiu com toda a sinceridade a sua poiésis com o que tinha à mão, oferecendo a nós todos mais uma faceta do espetáculo humano.
Que os carrinhos, a pulsão e a platéia nunca lhe faltem".
(Henrique)
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6.6.2004
Era um dia frio, muito frio. O corpo consegui aquecer, mas a alma insistia em permanecer descoberta.
Eu tremia e as lágrimas quentes escorriam.
Eu pensava que não devia ser assim, pensava em tudo o que tinha e sabia que tudo somado, tinha que ter mais peso do que o que me faltava, mas a alma continuava fria, descoberta pelo inevitável desamparo que todos nós temos.
Somos animais desprotegidos, os mais desamparados e dependentes do reino animal, então aceitei minha essência, o frio e as lágrimas... foi quando li o texto do Flávio Izhaki aqui e mesmo não sabendo que frio ele sentia quando o escreveu, fui capturada pelo texto e o trouxe pra cá.
"Para ler esse texto você tem que estar sentindo frio. Para ler e entender esse texto, o frio que você está sentindo tem que ser anormal, algo como um tremor de início de outono no Rio de Janeiro. Mas não existe esta estação na cidade. Porque aqui é assim: ou é verão ou não é verão. Para ler e sentir esse texto você tem que estar andando, e sentir uma brisa gelada soprar por trás da orelha. O medo. Para você entender esse texto, sentir este texto, viver este texto, tem que ser noite, escura, fechada, só com as lâmpadas frias e muito altas te iluminando. Para ler esse texto é preciso silêncio, concentração, nada de carros na rua, pessoas brindando, mouse correndo. Nada. Para ler, entender e sentir esse texto é preciso que o sinal esteja fechado, aberto pra você, para o trânsito, que não exista, e assim, mesmo assim, você estaque, como um ponto final, para depois, quando fechar, quando abrir, você reinicie, reticente, reticências... Para ler esse texto é preciso que você fraqueje, gagueje. Negue, negue tudo. O impossível desminta, para ler esse texto. E quem lerá esse texto então? Então, quem passou por isso tudo, as condicionantes, os condicionados, os condicionais? Só quem lerá esse texto, e viverá esse texto, e sentirá esse texto, e o entenderá, coitado, coitado, sou eu. Se tiver chegado até aqui. O que duvido".
(Flávio I.)
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